quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Um novo rumo no Kandumbu

(19/08/08)
A acompanhar a mudança da estação em Benguela mudou também o rumo da nossa motivação em relação ao trabalho realizado no Bairro do Kandumbu.
Se até aqui o nosso dia-a-dia era preenchido com explicações e filmes, hoje a rotina foi quebrada. Conseguimos finalmente estar com aqueles que mais precisam, e merecem, a nossa atenção…os meninos da rua. Estes são as crianças que têm menos possibilidades de ir à escola, de conseguir uma consulta no Centro de Saúde e que revelam na sua atitude a falta de atenção que sofrem.

Nos primeiros dias sentimos alguma dificuldade em chegar a eles, porque a sua vontade de estar connosco, de nos tocar, era tanta, que se atropelavam para estar mais próximos, o que nos causou algum medo, por uma atitude quase selvagem. Até que um dia, durante as horas mortas, sem nada para fazer, conhecemos um grupo de meninas que brincavam na caixa de areia que nos olhavam com um olhar curioso e cativante, típico das crianças. Conhecemos então a Nita, a Ana, a Sheila, a Neuza e a Lai. Passaram a fazer parte dos nossos dias. Vinham cumprimentar-nos com um sorriso aberto desejoso de uma resposta, e com elas começaram a aparecer mais crianças.

Depois de vários dias dedicados à escola, chegou mais um dia de actividades. Sem o truque do filme na manga, era urgente arranjar uma forma de os ocupar. Sentámo-nos então nas escadinhas da igreja, a olhar para as crianças e elas para nós. A Andreia logo arranjou que fazer com as suas alunas. Como prometido, ensinaram-na a fugir da bola que tanto teimava em lhe acertar, ou seja, o famoso jogo angolano, a “garrafinha”. Também o Tiago conseguiu escapar e juntou-se a um grupo de rapazes que acompanhados de uma bola logo começaram um jogo de futebol. E nós continuamos a olhar para elas e elas para nós. Com tantos olhares expressivos e sorrisos bonitos sentimos necessidade de os registar, para mais tarde recordar. E logo a máquina fotográfica se tornou a personagem principal. Era o “click” que faltava. Para conseguir acabar com a euforia da máquina começamos a cantar canções. Como hábito, começámos pela canção “Atirei o pau ao gato”. Com vozes tão afinadas lançámos o desafio para nos ensinarem canções novas. E que belo concerto elas nos ofereceram. Ora vejam lá se não temos razão. Como prova, deixamos aqui as letras de canções tão únicas que nos deixaram sem palavras:

• “Em cima de uma montanha tem uma flor azul/ Quem tirar essa flor comigo é sem parar/ Vou tirar meu chapéu para cumprimentar/ Quilara quilara quilara oba”;
• “Mano João está a dormir/ O sino já tocou/ Está na hora de saída”; • “O comboio partiu as pernas/ Chia chia barriga de carvão”;
• “Atrás da nossa escola encontrei um jornal/ Estava escrito: Viva a nossa escola”;
• “O passarinho donde/ Caiu na água donde/ Ficou gelado donde/ Eh eh eh donde”;
• “O carro na estrada pi pi pi/ Bateu numa pedra pa pa pa/ O homem do lado maié maié maié/ morre morreu morreu ai ai ai/;

Pelo meio encontramos uma “melancia gorda e vaidosa”, fomos à “caça do leão” e andámos a “apanhar animais no jardim”. Sem mais ideias e com medo de uma nova rebelião e já com a curiosidade aguçada tratámos de os pôr a mexer. Foi um belo espectáculo de Kuduro proporcionado pelas crianças. Ao som do “Minguito”, crianças pequenas mostravam o sangue que lhes corre nas veias, o autêntico angolano. E foi com este pequeno momento que continuamos a perseguir o sonho de lhes dar um mês diferente e único.

Teresa e Rita Maio

Um comentário:

Anônimo disse...

muito bom. continua o bom trabalho. a ver se colocam algumas fotos aqui :)